A vida é uma caixinha de surpresas
Quem está a mais tempo na internet já deve ter se deparado em algum momento com o homem mais perseverante de nossas terras tupiniquins: Joseph Climber. Trata-se de uma esquete do grupo "Os Melhores do Mundo", homônima a esse texto, onde o protagonista é afligido pelos mais variados males e assim que ele se recupera da ultima desgraça um novo mal o assalta e ele precisa superar um novo desafio. A peça reúne varias expressões de humor, desde humor físico, quebra da quarta parede e repetição de paradigma. Um dos motes de repetição é a celebre frase "mas a vida é uma caixinha de surpresas" a qual sempre vem após a recuperação do personagem e precede o anuncio de sua próxima mazela.
Assim como a triste vida de Joseph Climber a nossa também "é uma caixinha de surpresas", estamos sujeitos a uma infinidade de problemas, a começar pela nossa vida, como diz meu pai "para morrer basta estar vivo", essa é nossa única certeza, a morte nos ladeia a todo tempo, não sabemos se um caminhão perderá o freio, se seremos atingidos por uma bala perdida ou se um mau-caráter nós cercará em uma esquina e nós ceifará por meia duzia de cruzeiros, e por falar nisso eis outra mazela, mesmo na mais bela viela de londrês podemos ter nossos bens subtraídos a força, não obstante podemos adoecer, sermos privados de nossas forças, impedidos de exercer o santificante trabalho, podemos ainda ser vitimas de maus governantes e qualquer outro desdobramento do pecado de Adão que você consiga pensar.
Certamente qualquer um de nós ficaria chateado, angustiado, ou ansioso só de pensar em qualquer uma das apocalípticas coisas listadas acima, mas se nos limitarmos somente aos sentimentos, sem tomar ação alguma, certamente seremos consumidos por nossa própria imaginação. Recentemente li "Robson Crusoé" do Daniel Defoe, veja quantos problemas a personagem principal enfrentou ate conseguir sair da ilha onde naufragara e voltar a sua ilha natal na Grã-Bretanha, se esse tivesse ficado parado apenas pensando no acontecido teria certamente perecido em uma ilha segura capaz de lhe oferecer alimento, descrita por ele mesmo como obra da (Divina) Providencia. Se meu exemplo foi ruim por ser uma personagem fictícia saiba que existem pessoas que não se abalam por nada, uma delas foi um homem que viveu na passagem dos seculos XII e XIII: Giovanni di Pietro mais conhecido por são Francisco de Assis.
Francisco era um homem de saúde frágil que abandonou (de bom grado) sua vida burguesa para viver como mendigo vestindo roupa de saco e fazendo incontáveis penitencias. Contraiu uma doença, talvez malaria, em sua ida ao oriente médio, antes de sua conversão, que lhe causará problemas no sistema digestivo (estomago, figado e baço), além de uma conjuntivite atípica que durante as crises ele mal poderia manter seus olhos abertos. Seus imensos jejuns podem ter ajudado a agravar seus problemas digestivos lhe causando ulceras (e talvez um tumor), a situação miserável que ele se propôs a viver pode ter enfraquecido ainda mais sua saúde. Se no corpo as doenças o consumiam, o que lacerava sua alma era a libido amandi, devido sua vida pregressa as tentações da carne o atormentavam com frequência passando semanas a fio lutando contra a concupiscência, o que levou-lhe a rolar nu na neve em certa ocasião e lançar-se nas roseiras de espinho em outra. Isso sem citar os sofrimentos dos estigmas de Cristo os quais ele teria recebido milagrosamente. Esse homem senhoras e senhores compos a mais bela oração que já ouvi (posteriormente intitulada "Oração de são Francisco") além de compor, as vias de sua morte, o cântico das das criaturas louvando o Criador através da beleza de sua criação.
Certamente nossa vida pode virar de cabeça para baixo de uma hora para outra, de fato tudo pode nos acontecer, nada está no nosso controle. Mas e nós como agiremos diante disso? Como derrotados, acuados e amedrontados? Ou buscando novas oportunidades como Joseph Climber, contando com a Providencia como Crusoé e louvando as belezas da vida como são Francisco? A vida, a vida é uma caixinha de surpresas e é como reagimos a elas que define nosso destino, nossa natureza é caída e é necessário que cultivemos a virtude da esperança para não sermos consumidos pelo desespero.
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