Eles não tinham televisão - Como o entretenimento mudou nossa vida

 Me perdoe pelo titulo, não pensei em nada melhor, durante o minha ideação e organização das ideias me veio fixamente a cena de "os incríveis": 


Recentemente eu comecei a me questionar qual era a origem do Truco - o jogo de cartas - e apesar das controvérsias é provável que tenha chegado em nossas terras tupiniquins pelos jesuítas (S. José de Anchieta, rogai por nós) os quais jogavam muito baralho em seu tempo livre e que teriam ensinado os bandeirantes, os quais também jogavam bastante. Com o avanço do sertanismo e o começo das tropas o jogo chegou em todas regiões da colonia e se desenvolveu em variantes regionais próprias a depender das influencias locais. Pensando a respeito disso eu comecei a refletir em como as pessoas se divertiam antigamente e como elas tinham tempo para se entreter. Pense em uma tropa viajando saindo do litoral e subindo para ouro preto, ou mais longe ainda, paras terras goianas, a tropa viajava parava para almoçar, viajava mais e parava para jantar, sabemos que não é necessário de vários homens para cozinhar, mas o que o resto da topa poderia fazer enquanto o almoço, e especialmente o jantar, era preparado? Poderiam revisar as mulas, averiguar se nenhuma foi perdida ou ferida, ou se apresenta algum sintoma de doença, mas ainda assim é provável que sobrasse algum tempo, pois a historia nos narra de festas nas paragens das tropas, musicas ao som da viola e como já foi dito partidas de carteado.

Sim, e daí? Atualmente vivemos nossas vidas de maneira agitada, não paramos por nada e nosso entretenimento está, literalmente, na palma de nossas mãos, o celular tornou-se uma extensão logica de nosso corpo, o que faz sentido, já que ele soma as funções de agenda, calendário, lista telefônica e meio de comunicação. A principio a internet não é necessária para nenhuma dessas coisas, mas é através dela que se somarão o entretenimento e a iteração social (ou a falsa impressão de). As redes sociais evoluíram para nos manter entretidos o máximo de tempo possível (não irei me extender sobre quaisquer aspectos técnicos ou mercadológicos disso), os algoritmos de recomendação são especializados em fazer correlações e apresentar conteúdos novos, a rolagem infinita e o fomento da ideia de manter-se sempre atualizado tem nos prendido a um ciclo dopaminérgico (também não me estenderei sobre vicio em mídias digitais) nos afastando dos convívios físicos e reais. 

Todavia é um engano pensar que isso começa com a web 2.0 e suas redes sócias, foi a televisão a responsável por isso durante muito tempo - "estou sem nada para fazer, vou ver TV" - voltemos ao titulo do post, aparentemente a TV é mais interessante do que a intimidade do casal. Também tenho certeza que acompanhar a Carminha traindo o Tufão é mais interessante que ouvir sua esposa reclamar do trabalho, da mesma forma que chocar-se com os crimes da Nazaré Tedesco é bem mais divertido que fazer cafuné no seu marido enquanto ele afirma que quer empurrar o patrão de cima da escada. Não estou trazendo nada novo, apenas chuva no molhado.

O radio também pode ser colocado nessa lista, mas tenho a impressão dele ser o menos danoso, o radio pode ser usado de plano de fundo para um churrasco (a televisão também, mas o audio-visual pede uma fatia bem maior da nossa atenção), embora muito do que temos hoje tenha efetivamente começado no radio, as radio-novelas e as esquetes de humor, por exemplo, os programas de radio servem para preencher os vazios tal como usamos os indexadores de musica hoje em dia (porém com muito mais estilo, afinal você não pode mandar um "alô" para sua namorada pelo Spotify). Na radio-transmissão existem estações e programas específicos para diferentes gêneros musicais e se não for possível sintonizar a frequência desejada ou não estiver passando o programa de sua preferencia seu entretenimento terá que ser conversar com alguém (a tv aberta tem uma dinâmica parecida).

Eu poderia ir além e propor uma analise para jornais e livros, mas tu tem que ser muito chato pra achar que o Estadão ou o Harry Potter é mais divertido que uma boa partida de truco (seis mi rato, ladrão dos meus tentos), lembrando, estamos falando de entretenimento.

Mas o que eu quero dizer com isso tudo? - Nós estamos ficando cada vez mais individualistas, estamos nós cercando de nós mesmos e de estímulos artificiais para entreter-nos, veja: quantas vezes você já sentou com seu pai para beber uma cerveja e conversar fiado? Já se reuniu com seus tios para jogar caixeta? Já sentou com seu filho para ensinar ele a fazer uma pipa? Você já sentou com os colegas de trabalho depois do almoço para falar quão bonitas são as moças do RH? (cuidado isso pode dar justa causa, ou causar brigas na relação). Qual foi a ultima vez que você saiu com suas amigas e colocou a fofoca em dia sem tirar uma duzia de fotos para colocar no Instagram? Qual foi a ultima vez que você ouviu verdadeiramente os desabafos da sua esposa? (nunca). Já ensinou sua filha a fazer crochê? Já mostrou as fotos do seu casamento para seus filhos? - Nos acostumamos a chegar do trabalho e ligar a televisão, ou pegar o celular, e quando não tínhamos isso?  Como eram nossas diversões? Elas não eram, por sinal, mais saudáveis? Não estamos perdendo a capacidade de nos relacionar? Não estamos deixando de dar atenção aos mais próximos? Ninguém em sã consciência vai dizer que a vida antigamente era perfeita, mas certamente nossas relações eram muito mais profundas do que imagens em uma tela.

Esse é o inicio do meu manifesto contra a "Síndrome de estar perdendo algo", ou FOMO (Fear of missing out), as coisas que passam no jornal (ou no twitter) não estão sob seu controle, sua serie ou novela podem esperar, e acima de tudo, você não é especial. 

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