Um "eu" fora de mim
Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, assim falava a canção que na América ecoou. Mas o que é um amigo? Segundo o dicionário um amigo é "Alguém que se ama, pessoa em quem se tem afeto", Aristóteles vai dizer que a amizade nasce na virtude então amigos são aqueles que buscam crescer como homem que compartilham os mesmos valores, seu pupilo medieval Santo Tomás de Aquino vai dizer que amigos são aquela que querem (que amam) as mesmas coisas e odeiam as mesmas coisas "idem velle, idem nolle", seu predecessor Santo Agostinho de Hipona é mais abrangente e diz que amizade é a comunhão das almas. Existe ainda uma outra definição baseada no conceito aristotélico presente na Ética a Nicomaco que vai dizer que "um amigo é um 'eu' que existe fora de mim".
Na filosofia clássica a relação de amizade se dava através do amor, da philia, existe uma atração humana uma intercessão da vontade dos indivíduos que os coloca lado a lado como 'amigos'. O doutor Angélico vai estreitar esse laço e dizer que essa intercessão que causa a cola (o amor|philos) se dá em vista de uma unidade da vontade dirigida para O Bem (não simplesmente às virtudes) a amizade só é verdadeira quando direcionada ao Bem último, a amizade se dá vista da salvação das almas.
Para um pragmatista (ou alguém incapaz de fazer a interpretação correta) não pode existir amizade entre um cristão e alguém que não quer ser salvo, ou uma interpretação ainda pior: que o cristão não deve procurar amizades senão para contribuir com sua própria salvação.
A interpretação de Augustinho soa muito mais abrangente que a dos outros dois, talvez pelas amizades de sua vida pregressa ou pelo espiritualismo adquirido em seu tempo de gnosticismo. Quando Augustinho diz que a amizade se dá na comunhão das almas ele coloca que quaisquer viventes podem ser amigos entre si desde que haja comunhão entre elas e essa comunhão se dá justamente na Verdade, o erro e a divergência podem existir, mas o poto de firmeza é a Verdade e é natural da amizade que ela corra para o Bem, pela purificação mútua dos amantes, ambos crescendo na Verdade se cresce também a amizade.
Os conceitos aristotélico/thomista e agostiniano não são opostos mas parte de pontos de vista diferentes no fim é o Bem e a Verdade que ancoram essa relacionado entre os homens.
Acontece que a philia é imperfeita, ela justifica e mantém a amizade unida, mas não tolera a divergência. O idem velle, idem nolle é manifestação aparente da philia, e se ela n acontecer a amizade rui.
O único amor perfeito é o ágape o qual é exclusivo de Deus, porém pela graça do batismo acontece a deificação do homem, como membros do corpo místico de Nosso Senhor Jesus Cristo que é Deus podemos - por concessão - agapos uns aos outros através da Caridade. A caritas é a expressão humana do ágape, o homem ama a Deus através da caridade, é ama os outros homens em Deus pela mesma caridade. A caridade é a manifestação do Ágape divino por meio do homem como no poema "O ditador na prisão" de Adélia Prado onde "Quem inventou os corações se apodera do meu para amar este pobre".
O homem só pode ter uma amizade verdadeira pela manifestação do amor verdadeiro, aquele que supera tudo, aquele que basta por si mesmo, o homem é capaz do Bem, mesmo sem a graça batismal, mas ainda é imperfeito, é portanto a comunhão de suas almas também serão imperfeitas. Mas amando seu irmão em caridade a amizade a de superar qualquer adversidades, erro ou divergência porque na caridade o cristão pela graça do batismo se põe como alter Christus em seu amor, mas não o faz por si mesmo mas por ver em seu irmão o proprio Cristo. É o eu (espelho de Cristo) existindo fora de mim (manifestação do Cristo meu irmão), é o homem amando o homem na comunhão dos santos como o Pai ama o Filho no Espírito Santo.
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