Noites Barrocas (Cachimbadas em Ouro Preto)

Preâmbulo:

Os textos a seguir não constituem uma obra contínua. Cada dia encerra-se em si mesmo. Seu objetivo é apenas registrar os pensamentos que circundavam minha mente ao final de cada um dos dias que passei em Ouro Preto.

Por isso, não se trata propriamente de um relato de viagem, tampouco de um diário. Também não são crônicas ou ensaios, embora tomem emprestado algo de cada um desses gêneros. Os textos seguem uma linha de pensamento, mas não constroem um fio argumentativo; são apenas a primeira destilação das ideias que fermentaram ao longo do dia e encontraram seu registro nestas páginas.

A intenção original era chamar esta sequência de textos de "Cachimbadas em Ouro Preto". Planejava encerrar cada dia fumando um fornilho de cachimbo enquanto contemplava os acontecimentos e impressões acumulados. No entanto, acabei fumando apenas uma única noite. O que permaneceu não foi o cachimbo, mas a contemplação. Por essa razão, o título mudou para "Noites Barrocas".

Ironicamente, justamente nessa única noite em que me sentei numa praça para cachimbar ocorreu um episódio curioso, posteriormente narrado na crônica "Será que agi certo?", publicada separadamente desta coletânea.

O leitor não encontrará nas páginas seguintes uma narrativa em progresso nem uma conclusão a ser alcançada. Encontrará apenas pensamentos em seu estado mais próximo do surgimento: associações, desvios, perguntas e observações recolhidas, e escritas apressadamente, ao final de cada noite.

Foto de Matheus Freitas

30 de maio:

A cachimbada de hoje não teve fumaça, pois não tenho fogo. Veja quão inútil é um punhado de tabaco e um cachimbo quando não se ha fogo. Assim foi meu pensamento hoje em vários dos museus que eu passei. Embora eu seja apaixonado por arte sacra e por museus e antiguidades no geral, hoje algumas peças, apesar da encantadora beleza que elas tinham, da exuberante técnica barroca de tais peças, um sentimento doce-amargo pairou sobre mim, em especial sobre as credencias, tecas, cálices e ambulas, além é claro dos tabernáculos do santíssimo. Tais objetos consagrados ao culto do Senhor nosso Deus outrora serviram para portar o Corpo e o Sangue de Nosso Salvador agora não passam de um pedaço da historia expostos em vitrines. De fato é melhor do que fada-las a destruição e perdermos nossa historia, mas talvez fosse melhor que elas ainda fosse usadas no culto divino. Será que essas peças ali não estão sendo um cachimbo carregado de tabaco sem nem um fogo que o acenda? Bom ainda é melhor do que não ter nem o tabaco.

31 de maio:

Comprei um esqueiro, meio superfaturado eu diria, mas apos um dia cansativo subindo e descendo morros de calçamento em pedra um cachimbo não cai mal pra desacelerar. A vida da gente as vezes é engraçada, em um dos lugares que visitei tinha um texto intitulado "nem só de arte vive o homem, mas de mágoas também", pularei qualquer analise a cerca da referencia bíblica, mas o texto seguia contando que o artista (Guignard) - o qual estava em exposição ali - escrevera uma serie de cartões de datas comemorativas como natal, pascoa e carnaval para uma mulher que ele amava (Amalita Fontenelle), acontece que esses cartões nunca foram entregues e ele viveu mais de duas décadas de amor não declarado. Certamente você conhece alguém assim, que gasta muita energia em algo que não existe e que não gasta nem um quinto dessa energia para fazer algo acontecer. MAS mais do que isso, quantas vezes nos não somos assim? Ficamos travados diante da nossa vocação? Seja o bom e velho "não sei se eu caso ou compro uma bicicleta" ou o "e se eu fosse padre" e o "e se eu entrasse para o convento", ficamos sonhando acordados com a possibilidade de cada uma dessas coisas, mas não começamos a planejar casamento nenhum, não orçamos nenhuma bicicleta e nem vamos a encontros vocacionais. Ha ainda aquele que "ah, já sei qual é minha vocação", mas não toma providencia nenhuma para concretiza-la, síndrome de joão calvino? Vai esperar que a predestinação te leve a cumprir sua vocação? Pois pare de pensar em como seria bom ter uma esposa e 4 filhos, de como seria bom presidir uma missa ou acordar meia noite para rezar as matinas e voltar a dormir para rezar as laudes na alvorada, procure uma namorada (procurar faz parte do processo), conheça as regras do seminário da sua diocese ou estude as diferentes ordens religiosas (e as novas comunidades também nos dias de hoje) e veja qual melhor se adere a seu carisma. Dê o primeiro passo, as vezes é preciso caminhar e esperar Deus colocar o chão.

01 de junho:

Hoje não turistei (nem fumei, talvez deva mudar o nome dessa coluna), apenas participei do simpósio acadêmico (que é o verdadeiro motivo dessa viagem), fato é, não pude deixar de notar algumas coisas da providencia divina: existe uma propaganda sistemática, seja na boca dos guias turístico ou nos meios oficiais da cidade "Ouro Preto é patrimônio da humanidade declarado pela UNESCO", vou pular qualquer polemica a cerca da ONU e passar direto para o que importa, essa cidade que é um museu a céu aberto, que não é possível fazer uma panorâmica 360 sem ver a torre de uma (ou mais) igreja(s), deve permanecer assim enquanto essa "ordem mundial" permanecer de pé, exatamente, essa <nova> ordem mundial quase abertamente anti cristã definiu que uma duzia de igrejas deve permanecer de pé pelo resto da eternidade. Ainda que o catolicismo desaparecesse num estalo de Thanos essas igrejas com sua arquitetura que são por si só um culto a Deus devem permanecer de pé, é como se se criasse uma garantia que as pedras clamasses na ausência do clamor humano. A magnanimidade dos arquitetos que conceberam e construíram essas igrejas fizeram os homens laicistas do futuro enxergarem valor em tais obras e (ironicamente) garantir um culto perpetuo a Deus, se não pelos homens de hoje, pelos homens de ontem através das pedras e das madeiras. No final o Bom e o Belo garantiram a eternidade do Verdadeiro.

02 de junho:

Uma missa 7 horas da manhã estar lotada em uma terça-feira braba é curioso, no minimo, não é solenidade de nada e a missa semanal tem durado uns 50 minutos, também não pareciam ter turistas ali aproveitando do único horário que é possível entrar no monumento histórico sem pagar, as pessoas foram realmente assistir à missa. Será que me acostumei mal ao ver mesmo a missa dominical vazia? Será que o povo de minas tem mais fé? É mais religioso? Não pode ser apenas cultura, não faz sentido mera força humana lotar uma celebração 7 da manhã. Mas paremos de falar da minha surpresa (que não deveria ser surpreendente), falemos das mentes pensantes que farão o futuro da computação aplicada a saúde, algo me incomodou nos corredores da UFOP, apesar dos maravilhosos trabalhos cujas arguições orais em nada perdem no quesito qualidade, tudo aquilo parece mais uma masturbação acadêmica do que reais possibilidades de mudar a vida dos viventes, será que sou pessimista? Ou ainda não compreendi a magnanimidade desses trabalhos? Bom no fim do dia eu ainda fico feliz de não estar andando dentro de um prédio brutalista.

03 de junho:

Bom em vista do fato de eu realmente só ter cachimbado um dia na viagem toda oficialmente irei mudar o nome, pensei em "noites em ouro preto", mas achei o nome demasiado genérico, então pensei em "noites pretas", mas achei meio macabro, fiquemos com "noites barrocas" e não brigamos mais por isso. Além da ausência da nicotina e da fumaça hoje meu dia também não foi em ouro preto (embora a noite sim), Estive em Mariana, que é só mais uma das incontáveis cidades do Brasil (meu brasil brasileiro) que tem nome referente a Santa Mãe igreja (e nesse caso à santa Mãe de Deus também), Mariana, cidade de Maria (mãezinha do céu...), Anápolis, cidade de Ana (Sant'Ana, mãe de Maria Santíssima), Monte Carmelo, referencia ao monte do <santo> profeta Elias, Salvador, são Salvador i.e. Nosso Senhor Jesus Cristo, São Paulo, Santa Catarina, Santa Rosa(RS), São Gonçalo(RJ), Trindade(GO) auto explicativo. Nossa terra de Santa Cruz tem sua historia profundamente marcada pela religião católica, louvado seja Deus pelo irmão Portugal e suas grandes navegações. Mas deixemos as percepções obvias e os louvores ao Senhor de lado por um instante falemos agora da pusilanimidade de alguns seres humanos (brasileiros para restringir um pouco o espaço amostral), comentei com um colega que provavelmente iria para Mariana hoje e por isso não ficaria no congresso, ao que ele prontamente me respondeu "vai fazer o que lá?", eu como quem não quer nada respondi "ah vou ver as igrejas" ele prontamente me respondeu "são iguais as daqui (ouro preto)", por que tentar colocar empecilhos nesse meu passeio? Por mais "iguais" que sejam as igrejas e os museus eles são diferentes também, cada um é sui generis a sua própria maneira, mas todos são igrejas barrocas e museus do grande ciclo mineiro do ouro, ora se eu ouvir "Chico Mineiro" não preciso ouvir "Cabocla Teresa"? Ambos são toadas caipiras, ou será que se eu ouvir o "Barbeiro de Sevilha" estou dispensado de ouvir "Il guarany" por que ambos são operas? Parece que as pessoas perdem a capacidade de ver beleza nas coisas o simples fato dessas igrejas serem belas é causa finita para visita-las, não atoa milhares de não católicos as visitam anualmente e se encantam com a magnanimidade dos artistas que as construíram, mas não fiquemos apenas em criticar o outro (por mais divertido que isso seja), e eu o que eu estou negligenciando? Onde eu parei de ver beleza? Qual é a Londres que eu preciso partir e re-atracar - por engano - para ver as pitorescas trivialidades que me cercam? 

04 de junho:*

Hoje me permiti sentir tédio, não que algum dia eu tenha me desabituado a tal sentimento, fico facilmente entediado ate com Brain rot de internet, o "pequenas empresas, grandes negócios" me é muito menos entediante do que os shorts do youtube (e eu consumo bastante diga-se de passagem), mas hoje passei a tarde toda sem fazer absolutamente nada fiquei sentado no sol só existindo, me parece que o tédio as vezes é absurdamente saudável, chego a imaginar que um dia vai estar no receituário medico de alguém "1h de tédio por semana". Se minha tarde foi um tédio <quase> proposital minha noite foi um tédio imposto, 2h de ônibus e mais 2h de voo sem poder usar celular para economizar bateria, bom eu ate tinha algo para ler, mas estava tão mentalmente exausto (e fisicamente também depois de quase 3h de procissão pelas ladeiras de 90º de Ouro Preto, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena) que nem consegui ler, ora as palavras simplesmente borravam como se eu precisasse de óculos para miopia, ora as palavras não faziam nenhum sentido como se eu estivesse lendo em um idioma que não conheço, pelo bem ou pelo mal restou-me apenas minha <má> companhia, metalinguisticamente pensei nesse texto e agora escrevo sobre o tédio que me levou a escreve-lo.

[*] Embora os pensamentos que compõem o texto tenham se originado em 04/06, eles foram registrados apenas em 06/06.

P.S. Não foi realizada nenhuma revisão posterior com o objetivo de concatenar os textos ou harmonizar suas ideias internas. Foi feita apenas uma revisão gramatical mínima (dentro de minhas capacidades) para corrigir erros de digitação e algumas incorreções mais evidentes. Ainda assim, suspeito que permaneçam muitos erros nestas páginas.

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